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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

(In)capacidade de mobilização para a educação

Trecho do excelente livro de Jacir Venturi :
DA SABEDORIA CLÁSSICA À POPULAR (p.146)


Poucos assuntos são tão recorrentes na mídia quanto o esporte. Até mesmo numa sala de professores, o tema que prevalece é o futebol. Este – para a imensa maioria dos brasileiros – desperta debates, paixões, frenesis.
Fico a imaginar a comoção nacional, caso a seleção canarinho não passasse da primeira fase numa Copa. O técnico e os jogadores seriam empalados em praça pública.
No entanto, o que está acontecendo com o nosso sistema educacional? Em qualquer ranking comparativo com outros países, sempre estamos entre os últimos. E o mais trágico: perdemos a capacidade de nos indignarmos!
Dizia-me um amigo que, na Finlândia, são comuns os protestos em prol da melhoria no Ensino.
– Mas como, se os finlandeses detêm o primeiro lugar em desempenho no Pisa? – pergunto surpreso.
– Sim, o resultado é fruto dessa cobrança – faz-se lacônico o amigo.
É um círculo virtuoso: a população é crítica, bem instruída e cobra dos governantes uma boa educação para os seus filhos. O raciocínio é elementar: se deixarem de combater as falhas, perdem a excelência do ensino.

Rememoremos que o Pisa (sigla inglesa que significa Programa Internacional de Avaliação Estudantil) mede o desempenho de alunos em quarenta países e é patrocinado pela OCDE, órgão da Unesco. E o Brasil? Pesarosamente, ocupamos o último lugar em Matemática e o 37º em compreensão textual.
Independentemente de ideologia, credo ou partido, todos defendemos uma educação universal e de qualidade. Nenhum país atingiu elevado grau de desenvolvimento, sem que, em algum momento da sua história, não tivesse feito uma opção preferencial por um bom ensino.
Um tempo atrás, foi a vez do Deutsche Bank fazer cenários para o Brasil nos próximos 15 anos. Até nos posicionamos bem, mas o relatório cita uma grande fragilidade: educação deficiente.
É provável que o Chile possua o melhor sistema educacional da América Latina. A escolaridade média da população é de 9,2 anos (6,1 anos no Brasil). Desde 2003, uma reforma constitucional determinou que a criança e o adolescente tenham um mínimo obrigatório de 12 anos de estudo. No Brasil, esse mínimo é de oito anos.
Aproximadamente 80% dos jovens chilenos frequentam o Ensino Médio, enquanto no Brasil esse percentual não chega a 40%. Naquele país andino, em todos os níveis da educação básica, avança-se para a adoção do período integral (manhã e tarde).
E os gastos com a educação em relação ao PIB? Quem responde é o MEC(www.inep.org.br, ano 2002): percentualmente, o Brasil investe um pouco mais que o Chile. Aqui: 4,4%. Lá: 4,2%.
Estão os chilenos satisfeitos? Não! Tanto é verdade que, no ano passado, o que se viu nas ruas de Santiago foram passeatas de um milhão de estudantes e professores, pedindo maior qualidade de ensino e mais verbas. E não era um movimento hermético: receberam o apoio de quase uma centena de organizações sociais, políticas e sindicais.
Para o Brasil, não propugno passeatas, pois provavelmente descambariam para a baderna, mas se há uma “corrente pra frente” em relação ao futebol, por que não com a educação? É indispensável que a sociedade se mobilize. No entanto, é tristemente baixa a nossa capacidade de organização coletiva e de mobilização por um ensino de qualidade.
Os governantes e os educadores devem ser cobrados pelos pais e estudantes, como fazem os finlandeses, chilenos etc. Mas também os pais devem dedicar muito mais tempo ao desempenho escolar do filho. Somente assim será possível alterar a cultura e o status quo de latência, apatia e falta de iniciativa que permeiam o nosso sistema educacional, em que prevalece uma blague popular lamentável: “os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que estudam e o governo finge que paga”.

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